Sábado, Outubro 30, 2004
Creia, os meus sonhos são poucos. E únicos. Para mantê-los, preciso resgatá-los, a cada dia, dos altares onde os guardo, como se fossem lençóis ainda perfumados com o sol das manhãs e com as réstias das noites enluaradas que chegam na madrugada, pelas janelas do quarto. E preciso alimentá-los com a força dos leões e a mansidão dos cordeiros, agasalhá-los com as peles dos lobos e o canto dos sabiás e dos uirapurus, enfim, prepará-los para a arena, onde sempre lanço o meu inquieto coração.
Porque os meus sonhos são poucos, mas como eu disse: únicos. É lá que se prendem todos os meus anjos e também os demônios. Os peixes sem visão, do azul profundo dos mares, e a flor mais bela que ao sabor da correnteza morna da água, vai, simplesmente, como se fosse um poema de amor, esquecido de acordar. Também se concentram ali, das delícias do nirvana aos punhais da solidão cravados bem fundo, no peito de quem, querendo ir, fica.
São poucos os meus sonhos. E eu tenho prazer em levá-los, regá-los, alimentá-los, protegê-los, incitá-los, sustentá-los. Para transportá-los eu não preciso de dinheiro, ou de glórias, ou de diplomas nas paredes do escritório, e tampouco de burricos de carga, que como eu disse, são poucos os meus sonhos. Do que eu preciso sim, e muito, é dessas asas de cera entremeadas de papel maché que sustentam o meu coração.
E haja anjo do bem, e anjo do mal que me ajudem, ou derrubem, no meio dos silenciosos e doces vôos, e das mais exacerbadas e doloridas quedas, porque são poucos sim, os meus sonhos, mas grandes, infinitos e infindos estes sonhos. E alegram. E doem.
Portanto, creia... mas sem me beliscar.
Cissa de Oliveira
Vida
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Segunda-feira, Outubro 18, 2004
Que a frágil linha que nos une
teça à nossa volta um casulo.
E no escuro desse espaço
a metamorfose do amor aconteça,
transformando-nos em líricos seres,
dessa vez ligados
por cabos de aço.
Nídia Caldas
Vida
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Sábado, Outubro 09, 2004
* Traz-me o teu corpo num prato
de porcelana fina muito doce e quebrável"
in "A construção da casa* : José Antonio Gonçalves
... e quando eu chegar devagar baila
em meu corpo o teu olhar como se em mim
encontrasses a nota musical que faltava
para a tua sinfonia inacabada
recebe com tuas mãos de sol
os lírios guardados sob a minha blusa
tão puros e fartos de suas taças
de seda fria e delicada
com teus carinhos faz em minha memória
uns caminhos que se cruzem com o fogo
da minha boca tatuando no teu corpo
letras de poemas sem volta
feito fonte borbulhando recomeça incansável
os versos nas paredes de espuma da casa
incendiando e amparando-me na limpidez
desse desejo e querer profundo
e como se nos meus lábios morasse a canção
da sereia do teu mar fantasma
não me deixes ir jamais
ou enquanto eu disser te amo te amo te amo
Cissa de Oliveira
Vida
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Sábado, Outubro 02, 2004
Rasga tua boca
em minha faca
sente a dor
prescrever o verso que tu vais gozar
vê sangrar
num canto da tua boca o gosto
do meu beijo
Aí sim
podes pedir que eu me vá
Eliana Mora
Vida
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