Sexta-feira, Março 18, 2005
Antes que o vento descerrasse
As páginas em que te comporias em mim
Tuas mãos já me habitavam
Escrevendo-me tatuagens de carícias
Consentidas e permissivas decifravam-me
Lendo a paisagem do meu corpo
E a linguagem de todos os meus anseios
Antes que te pensasses em mim
Teus olhos já adormeciam em meus sonhos
E era por ti que eu fazia os meus dias
Na clandestinidade tão própria da nostalgia
Havia teus passos que me percorriam
Marcando os caminhos da memória
Como o anunciar das cores sobre o horizonte
No alvorecer da primeira manhã da vida
Antes que eu soubesse
Antes que chegasses
E que as letras despertassem
Do leito dos teus lábios
Acordando qualquer confissão
Já te sentia no mais profundo de mim
Aliciando-me todos os olhares
Consumindo-me a pretensa serenidade
Feito uma saudade inominada
Fernanda Guimarães
Vida
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Domingo, Março 13, 2005
E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.
Hilda Hilst
Eu não tenho vergonha
de dizer palavrões,
de sentir secreções
(vaginais ou anais).
As mentiras usuais
que nos fodem sutilmente
essas sim sâo imorais,
essas sim são indecentes.
Leila Míccolis
EU QUERIA MESMO ERA:
Estar entre teus pelos e dedos,
entre tua densidade,
neste transpirar sob medida
aos teus gemidos.
Estar entre teus trópicos,
entre o teu desejo e o meu prazer;
beber o teu desejo e o meu prazer;
beber parte de teus líquens e teus rios
percorrendo-te da foz até a origem,
e pura a cada amor partir mais virgem.
Leila Míccolis
Vida
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Sexta-feira, Março 11, 2005
Deve- se estar sempre bêbado.
É a única questão.
Afim de não se sentir o fardo horrível do tempo,
que parte tuas espáduas e te dobra sobre a terra.
É preciso te embriagares sem trégua.
Mas de quê?
De vinho, de poesia ou de virtude?
A teu gosto mas embriaga-te.
E se alguma vez sobre os degraus de um palácio, sobre a verde relva
de uma vala, na sombria solidão de teu quarto, tu te encontras com
a embriaguez já minorada ou finda, peça ao vento, à vaga,
à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo aquilo que gira,
a tudo aquilo que voa, a tudo aquilo que canta,
a tudo aquilo que fala, a tudo aquilo que geme.
Pergunte que horas são.
E o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio, te responderão.
É hora de se embriagar !!!
Para não ser como os escravos martirizados do tempo,
embriaga-te. Embriaga-te sem cessar.
De vinho, de poesia ou de virtude. A teu gosto...
(Charles Baudelaire)
Vida
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Segunda-feira, Março 07, 2005
Deixa brotar outra vez a madrugada.
Estarei de vigília
à tua espera.
Pode acontecer de me distrair namorando estrelas
- foi assim uma vez
e não te vi passar.
Agora, não; aprendi com as girafas
e não te perco na noite.
E quando te sentir por perto
vou tremer por dentro
como nas manhãs de ressaca.
Se me olhares, sorrirei tímido;
se me gostares,
vou te amar como nunca.
Luiz de Aquino
Vida
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